Monday, December 07, 2009

Benfica - Académica: obrigado, Saviola (e dois apontamentos)

Sou doente. Assumida e orgulhosamente doente. Antes da bola, do espectáculo,antes de ver sequer dois passes rasteiros seguidos de pé para pé ao primeiro toque, eu quero que o Benfica ganhe. Um a zero, com a mão, fora de jogo depois de empurrar violentamente o defesa adversário contra o guarda redes, fazendo com que o segundo tenha uma hemorragia interna. Portanto, como já expliquei várias vezes, ver o Benfica é um sofrimento atroz, mesmo que esteja 4-0 a dois minutos do fim com três jogadores a mais. Porque eu só quero que aquilo acabe e que o Benfica ganhe.
Daí que ontem, no meio daquele diluvio, quando Javier Saviola picou a bola e se fez um silêncio sepulcral na Luz, senti que algo tinha mudado em mim. É que, normalmente, assim que ele inclinasse o corpo para trás e metesse o pé debaixo da bola, eu ia insultá-lo. Porque aquela não é a solução mais eficaz, a que mais vezes dá golo. E eu, dali, quero golo. Não quero rodriguinhos nem bonitos. Quero golo, porra. Quero golo e que o Jesus comece logo a pensar em tirar o Aimar porque a época é muito longa. Mas não. Fiquei feliz. E quando a bola entrou mais feliz fiquei. Porra, que coisa linda, que classe, que arrepio. Ainda hoje, a trabalhar, arrepiei-me sozinho a ver a bola entrar outra vez. Que coisa genial.
E isto é errado, porra. Eu, louco convicto, não posso embarcar nestas euforias desmedidas, nestas parvoices de festejar chapéus como se valessem mais que um golo de ressalto. Tenho de manter o criticismo e a obsessão, porque sinto que se me deixo levar me posso vir a sentir culpado se as coisas não correrem bem. Acho que acredito mesmo nisto: que sou a voz da razão do Benfica e que, por isso, não posso descansar e tenho que estar sempre atento.
Agradeço muito ao Saviola pela honra de ter visto um jogador do Benfica fazer aquilo. E ainda me arrepio ao pensar. Mas ontem foram só mais três pontos e a viagem é longa.


1º apontamento: adoro ver os verdes assim, a afogarem-se num oceano de esterco. Como muito bem foi escrito no Tertúlia Benfiquista, os lagartos têm uma existência relativa. Existem em relação a nós. Paulo Bento verbalizou aquilo que toda a gente sabe e que toda a gente soube. E o que me dá gozo é que esta crise deles tem um só culpado: nós. Quando Saviola ontem fez aquele chapéu, milhares e milhares de verde que torciam pela AAC na esperança da 5ª ou 6ª alegria da época ficaram com um nó no estômago. Como lidar com aquilo? Não há fora de jogo para pedir, não há culpa do guarda redes, não há ressalto, só classe. E 41 mil pessoas no estádio no meio de um diluvio porque jogava o Benfica, o maior de Portugal. Como lidar com isso? A crise dos verdes é o nosso bem estar, não é o facto da equipa de futebol deles ser deprimente.

2º apontamento: tenho uma nova casa. O blog será um choque para os leitores do costume (excepto para os que me são próximos e que já sabiam o que casa gasta). Espero que gostem.

Tuesday, August 04, 2009

O traidor

Estava um calor do caraças, como hoje. Um tempo seco, eu tinha 9 anos e nem tinha força para jogar à bola. A notícia tinha-nos caído que nem uma bomba no ATL: "Paulo Sousa e Pacheco no sporting". Caiu-me tudo, parei de almoçar, nem sabia o que havia de dizer.
O TP, farense com uma simpatia pelo Benfica, tentava animar-me, mas nem ele acreditava. Até ele sentia a traição. Uma das imagens da minha infância é estar sentado com ele, nos bancos cor de tijolo, em silêncio, e ter-me saído inconscientemente, para surpresa da nossa educadora de infância (pouco habituada a ouvir-me dizer palavrões) um duro e seco: "Que cabrão". Parece-me que aquele momento foi a primeira vez na minha vida em que saí da infância.
O singular era propositado, a mim o que me doía era a saída do Paulo Sousa. Pacheco nem tinha sido titular na soalheira tarde em que vencemos o Boavista por 5-2 e em que aquela equipa atingiu um pico futebolístico inacreditável. Agora, o Paulo Sousa...lagarto? O TP, que odiava o sporting furiosamente (nunca compreendi muito bem porquê, mas talvez o facto de termos partilhado a mesma mesa na escola 9 anos tenha ajudado ao facto) e que nunca lhes dava tréguas, também soltou um desesperado "Que vai ser do nosso meio campo?". (Caraças, já percebíamos de bola à brava)
O resto da história é conhecida e talvez o final feliz de 1994 tenha apagado o ódio que Paulo Sousa merece.
Há uns tempos estava a sair da praia com amigos e namorada. Tudo com aquele ar estoirado de estar horas ao sol. Olhei para trás e vi... o Paulo Sousa. E disse-o. O F., um benfiquista à antiga, deu meia volta, sem perceber que eu o tinha visto no carro atrás de nós (agora que penso nisso, talvez a ideia do F. tenha sido mesmo atropelá-lo). Quando ele percebeu que tínhamos acabado de deixar o carro do Judas passar-nos à frente, foi como se lhe tivesse caído tudo. Tínhamos desperdiçado uma oportunidade de ouro.
E quando já todo o carro se ria a imaginar um excerto de porrada ao Paulo Sousa, ali estava ele. Na berma da estrada, a ir buscar qualquer coisa à bagageira. Ali, à nossa espera. O F. gritou-lhe um
traidor! que se deve ter ouvido no país inteiro. Obrigado, F. Por teres vingado aquela minha tarde de Verão de 1993, por teres feito com que esse cabrão saiba que o que fez não tem preço nem desculpa.
Porque o que esses animais fazem quando nos trocam por rivais é fazer com que miúdos de 9 anos fiquem tristes, como se o Mundo fosse uma miséria. O que esses atrasados mentais fazem é baixo, não tem classificação e só merece que, para toda a vida, sempre que pararem o carro, passem outros com gente lá dentro a fazer-lhes um sinal com os dedos e com nojo no olhar.

F. : Obrigado.

Este blog fez, no passado dia 31 de Julho, 5 anos. Cinco. Estou a ficar velho.

Thursday, July 16, 2009

Memórias de um Betico (II): Denilson

Foi logo no primeiro jogo em casa. Betis - Depor 1999/2000. Um daqueles zero a zero que não se vai desatar se algo de mágico não acontecer. E aconteceu.
Denilson era, já o escrevi antes, um daqueles tipos perfeitos para se ver numa equipa com a qual se simpatiza. Louco, craque, muitas vezes inconsequente. O tipo de jogador exasperante que, às vezes, nos leva ao céu e a ter que lhe agradacer, envergonhados pela quantidade de vezes que lhe gritámos para passar a bola.
Foi a primeira vez que foi aquele estádio, ainda me ambientava a tanto verde. Chegámos muito tempo antes e o estádio já devia ter umas 15 mil pessoas. Tudo em silêncio, concentrado em não sei o quê, enquanto eu via com estes olhos que a terra há-de comer o Djalminha (lembram-se?) dar dez toques de seguida...com a canela.
As viagens a Sevilha deram-me isto: três anos de imagens de futebol. Do jogo. Tenho a sorte da minha memória as ter guardado todas, como um caderno velho que posso visitar quando quiser. Desse dia tenho várias. Tenho aquele GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLL! vindo do nada, gritado pelos 15 mil, só com jogadores a aquecer, que o senhor atrás de mim me disse ser do Celta contra o Sevilla.
Mas mais que isso, lembro-me de Deni. Da bola a ir ter com ele, dele a pisá-la e deixar um por terra. E depois meter a bola de um lado, ir para o outro e fintar o guarda redes. Penalty.
Fiquei parvo. Que coisa linda, partiu tudo. O meu pai com as mãos na cabeça, eu com um sorriso. Caraças, que coisa tão linda. Aquilo emocionou-me, mexeu com a minha adolescência. Denilson, o brinca na areia, eterno fora da lei, em acção. Os defesas, como que baleados, pelo chão. O estádio rendido.
Depois, porque así es el futbol (toda una frase, tive eu que aprender), Finidi falhou. Zero a zero.
A quantidade de metáforas que eu podia tirar daquele dia. Foi encantador, a todos os níveis. A primeira vez que eu via bola no estrangeiro, a primeira vez que fui betico. Foi o dia em que conheci Denilson, em que me pude render à irreverência e que me pude (quase) borrifar para se o penalty dava golo ou não.
Lembro-me de, no regresso, o meu pai dizer, quase para si: só aquela jogada fez render estes Km todos.

Tenho saudades de ir à bola.

Tuesday, June 02, 2009

Memórias de um Betico (I): um abraço, Manolo

Estávamos em 2001, provavelmente em Maio ou Junho. Betis - Recreativo de Huelva, aos 80 e tal minutos. Desesperávamos na bancada por um golo (Atlético de Madrid e Tenerife estavam a ganhar e o empate significava ficar em 4º antes da última jornada). Um livre lateral, a bola sobra para o segundo poste e Belenguer - o tal que, apesar dos meus avisos aos companheiros de bancada - expulsou Cardozo numa simulação brilhante, rematou no chão. Aquele golo foi um desvario. Com aquele sol de Sevilha, com aquela gente que eu já conhecia, aquele golo foi uma alegria honesta, sofrida, merecedíssima. Betica.
Mas talvez tenha começado a crónica do fim. Ou do meio. O Real Betis Balompie desceu este domingo - para meu grande desgosto e pesar - para o inferno da segunda divisão espanhola. Sim, se eu tenho um segundo clube não é a Roma nem o Farense, clube da minha terra. Se algo a que eu posso chamar "segundo clube", no sentido em que não abdico um centímetro do Benfica, mas que me faz vir à net ver os resultados ou sintonizar a rádio em frequências espanholas, esse clube, apesar do equipamento de uma cor que deste lado da fronteira é proibida, é o Betis.
Tudo começou por culpa do meu pai, que quis ter um programa pai - filho e, ao mesmo tempo, evitar um enfarte certo indo ao Estádio da Luz. Com a cidade a 200 Km e com o convite de colegas de trabalho, foi assim que uma tarde de verão, me foi anunciado que eu era sócio de uma equipa de verde e que, inclusive, tinha carnet. E foi assim que, paulatinamente, me tornei irremediavelmente Betico.
Foram três anos da minha vida onde, religiosamente, de quinze em quinze dias, fui a Sevilha ver jogar o Betis. Com o meu pai e, nos dois primeiros anos também com o ilustríssimo D. (que lucrou do facto de um amigo do meu pai também ter querido fazer o carnet e nunca ter lá metido os pés), ir a Sevilha passou a ser um ritual que passava por cima de tudo. Tenho saudades. Das coisas todas desses domingos, do fazer as sandes antes de irmos, do sintonizar a rádio espanhola para começarmos a ouvir o "carrocel deportivo" da Cadena Ser. Da barraquinha perto do estádio onde comíamos sempre. Do ódio ao Sevilla.
Mas mais que isso, ver o Betis foi também uma fase "futebolística" da minha vida diferente (porque todas as fases da minha vida são, de algum modo, futebolísticas). Comecei a ler a Marca diariamente, a conhecer as manhas do futebol espanhol, as suas expressões, as suas riquezas. Era também - admito - uma maneira de esquecer como o Benfica se arrastava ao ponto de me fazer chorar. Talvez seja exagero, mas quase diria que foi uma maneira de continuar a conseguir ver futebol. Ok, foi exagero.
O Betis, para mim, é também isso: a Marca (ainda com a grande crónica do "Cortador del cesped"), Salva Ballesteros, esse porco sevillista, o Manolo, que a última vez que o vi, depois da segunda Taça UEFA dos rivais me disse, deprimidíssimo: "O que me dói mais é que já cá não vou estar quando virarmos isso.". Era o velho na bancada que gritava sempre "MANO!" em qualquer centro para a área dos adversários, na busca de um penalty. Era o facto de, também, eles serem um clube do povo.
Ouvi a descida em directo, na rádio. Arrepiou-me a descrição das lágrimas da aficcion. Não quis acreditar. Lembrei-me desse golo do Belenguer, da festa da subida que vi, na televisão, uma semana depois e fiquei triste. Foi como se me rasgassem uma fotografia velha de que sempre gostei muito.
Agora que vivo em Lisboa, não posso ir ao estádio, fazer aquela meia hora a pé e entrar no lugar do costume. Vou seguir a coisa pela net e pela rádio, à espera de poder festejar um golo como o daquela tarde de sol, em que fui feliz por ser do Betis. O que me vai custar é não bater com a minha mão na mão do Manolo - um high five clássico - como fazíamos em cada golo do Betis ou cada golo contra o Sevilla.

Um grande abraço para ti, Manolo.

Friday, April 24, 2009

Barcelona, esplendor na relva

Tenho com o Barça uma estranha relação. Cresci a admirar o Dream Team, a delirar com os golos deliciosos de Romário e com Laudrup a olhar para um lado e a dar para o outro. Mas mal este acabou, virei-me para o Madrid de Raúl para chatear o meu pai e por lá fiquei. Hoje, mesmo preferindo o Madrid ao Barça, é-me humanamente impossível não admirar a orquestra blaugrana. Uma equipa que ameça seriamente tornar-se uma das míticas.
Apesar da globalização, as equipas mantêm uma certa identidade. Não falo apenas do Athletic de Bilbao (esse mostra o dedo do meio à globalização), falo de várias: o Milan é cínico, a Juve chega a ser velhaca. O Liverpool é mítico e o Real Madrid monstruoso. Pensamos no Manchester United e vem-nos um vendaval à cabeça, o Bayern de Munique um exército. E quando pensamos no Barça?
O Barça de Pep Guardiola (um jogador tão brutal que Valdano dizia que ninguém o devia tratar por tu em campo) é uma delícia muito difícil de descrever e está tão afinado que dói. A equipa que faz coisas que, como escrevi sobre a finta de Messi no Calderón, dão vontade de virar a cara por pudor. Um pudor que o Barça já não tem. Em certos momentos, a humilhação do rival chega a dar pena. Acabam de joelhos, cansados, desmoralizados, esmagados.
A bola parece não parar. Minha, tua, tua, minha. Passe longo, passe curto. Um, dois, três e a equipa mexe-se como num tango. Divertem-se todos, disfrutam. Tudo começa em Xavi, um maestro que - passe a heresia - passou o mestre Pep que se senta num banco. Refinou o futebol a dois toques que o mítico 4 tanto amava: parar e receber. A melhor solução está sempre ali: perto ou longe, depressa ou devagar, o arranque fatal ou o passe para trás. A bola sempre com ele, a orquestra a girar. Os rivais desesperam. Depois, há Iniesta, a centopeia (expressão de Jorge Valdano). Um anjo com a bola nos pés. Siamês de Xavi, é como se fosse uma versão mais mexida, mais driblador. A maneira como ontem arrancou entre Carrick e Anderson para o primeiro golo é de uma elegância artística. Repare-se na diferença: Cristiano Ronaldo quando arranca é em força, tipo vulcão. Iniesta ontem pareceu-me que voava.

Por fim destaco, obviamente, Leo Messi. A pulga que nos parece mesmo ter genes de, ele mesmo, Maradona. A bola colada ao pé esquerdo como por encanto, a anca que finta repetidamente, os arranques imparáveis, como se fintasse os buracos da rua onde jogava quando era pequeno e depois tentasse rematar entre baldes do lixo. Messi é o menino da rua que, como li nalgum lado, paarece-nos que chega ao campo de boné para trás e pergunta timidamente se pode jogar.

Mas mais do que isso, este Barcelona revolucionou o futebol. Entregou-o de novo aos artistas. E até a mim, um defensivista, me conquistaram. Honra seja feita a Pep e a Luis Aragonés (que descobriu no Europeu que se desse um trinco - e, logo, a liberdade - a Xavi e a Iniesta dava à equipa a hipótese de poder mesmo passar os 90 minutos com a bola nos pés). O Barcelona que vi esta época fez jus à cidade. Não à parte turística, cheia de ingleses bebâdos. Fez jus aos bares escondidos no Bairro Gótico, onde se fala em catalão de liberdade.

Ver este Barça jogar emociona-me mesmo, como me emocionei a ler o "Por quem os sinos dobram". Arrepia-me ver aquela equipa baixinha, em Roma, trocar a bola rente à relva como se ensina aos infantis. E a alegria com que toda a gente se mexe e descobre um espaço e passa e arranca e a maneira como todos disfrutam. Ontem, em Roma, ganharam os bons. Os príncipes, os artistas. Aqueles a quem normalmente se reservam as vitórias morais. O Manchester, mais alto e mais forte, talvez lhes ganhasse todas as provas de atletismo. Mas ontem, a beleza do futebol - aquela que Nélson Rodrigues descreveu antes de todos os outros e Valdano continuou - revelou-se toda, num jogo que sintetizou uma época que será sempre falada no Bairro Gótico.

Este Barça não é uma equipa, é uma orquestra. Um sinfonia, um hino, arte. Quando Xavi lançou aquela bola celestial para Messi, percebi logo o lance e arrepiei-me. Arrepiei-me mesmo, como se um calafrio me passasse. A bola é divina, é perfeita, há um momento - como diz o jornalista do As - em que até parece que se atrasa para chegar à cabeça de Messi, como se tudo fosse combinado.

Não sei se este Barça da bola no chão e tabelas e passes vai durar muito. Se num futebol cada vez mais fodido pela globalização, cada vez mais rápido a consumir-se, se vai durar o suficiente para marcar a década. Mas a mim, que cresci com o jogo e que me apaixono por toda a vida, toda a história que ali se faz, já me marcou.

Foi como se me apaixonasse. Este Barça é o Esplendor na Relva.




El gol lo marcó Messi, pero lo inventó Xavi. El centrocampista colgó un centro al área y el balón tuvo la virtud de citarse con Messi, que volaba a su encuentro. Si contactaron por teléfono o telepatía lo ignoro, pero hubo un instante, y se observará en las repeticiones, que jugador y pelota se esperaron hasta coincidir, acelerando uno y retrasándose el otro. El tanto fue soberbio, pues descubrió al más pequeño por el aire, como si viajara en la onda expansiva de una explosión o cayera de algún sitio, del cielo seguramente. El gol, por cierto, también incluía un mensaje, como las galletas chinas. Decía Balón de Oro.

Sunday, February 22, 2009

lagartos - Benfica: ensaio sobre a tesão (ou a falta dela)

No outro dia estava a ver o Daniel Negreanu, grande jogador de poker, a dizer que havia momentos do jogo em que ele entrava in the zone. A mítica expressão que Michael Jordan representava na perfeição. Being in the zone era um estado transcendente. Um estado onde a concentração do atleta/equipa é tão forte que é uma concentração relaxada, onde tudo é fácil, onde tudo vai correr bem. Um género de força mental que, segundo Michael Jordan, fazia o cesto maior.
O que me custa no Benfica é que eu já não peço este estado de graça (desaparecido desde a noite de 14 de Maio de 1994). Eu já só pedia concentração competitiva, garra, querer. A que se viu no Dragão foi um bom exemplo, mas faltou-lhe killer instinct. Mas, sendo sério, quantos jogos nesta época se apresentou o Benfica como no Dragão? 4, 5 no máximo? E nos últimos anos?
O problema é que ao Benfica falta tesão a jogar. Tesão, porra. Uma palavra barata, para ser dita em conversas brejeiras. O Benfica é mole, é fraco psicologicamente, deixa-se abater. O Benfica comporta-se como uma equipa mimada a quem tudo tem de correr de feição (marcar primeiro e depois jogar em contra-ataque, esperar por um lance de bola parada..). Como se fossemos uns meninos ricos com o rei na barriga, a achar que tudo nos vai cair do céu.
Custa-me, aflige-me, envergonha-me até à ponta dos pés que o meu Benfica, o das camisolas berrantes, o que se canta nas bancadas que "nosso destino é o de vencer" não dê tudo num jogo como de ontem. Num jogo vital para a conquista do título, num jogo que independentemente disso vale o coração dos seus adeptos, o Benfica voltou a claudicar, a deixar-se ir sem lutar, como o menino que não quer brincar mais quando a brincadeira lhe começa a ser chata.
O Benfica não tem (mas devia, porra) que ganhar os derbies todos. Mas tem de meter o pé. Tem de lutar, tem de sangrar. Os jogadores têm de dar o que têm e o que não têm e se isso não chegar (o que pode acontecer), têm de chorar de impotência em campo, distribuir porrada, o que for.
Este Benfica é tão fraco emocionalmente que nem mau génio tem para mostrar que está chateado. Ao menos que fossemos o puto mimado que derruba o tabuleiro quando está a perder, sei lá. Mas não, a equipa baixa a cabeça e olha para o relógio para ver quanto falta para tudo aquilo acabar, com uma lágrima no canto do olho. Faz-me impressão que a equipa não tenha um olhar vivo, não tenha alma, não tenha nada. Não têm prazer nenhum, não desfrutam de jogar com a camisola mais linda do mundo, não a honram, não têm brio, nada.
Ao Benfica falta tesão, falta orgulho, falta jogar de cabeça levantada, sem complexos, sem medos. E isso não é uma coisa intermitente, cultiva-se, ganha-se.
Ontem percebi que estamos muito longe de estar in the zone. Tive vergonha que fosse aquele bando de meninos a vestir a camisola do meu clube.

Sunday, February 15, 2009

andrades - Benfica: e que tal esquecermos os últimos 15 anos?

Sábado à noite. Jantamos vários Benfiquistas e um lagarto e bebem-se cervejas e pessimismo. Amanhã vamos ao porto. Vamos perder. Sim, por 2 ou 3. Ou 3 ou 4. É sempre a mesma merda. Vamos ser roubados. Este ano nem é preciso. Não jogamos um caralho. O Hulk é grande jogador. O Aimar não corre e o Di Maria devia ser vendido por 10 euros.
Há anos que a coisa é assim. Vamos para lá por baixo. A cabeça a olhar para os pés, um olhar de cães abandonados à sua sorte. Antes do jogo chegámos a temer - imagine-se - a chuva. Quando chove lá, perdemos sempre. Como se ir ao Porto fosse uma descida aos infernos, uma má tarde a passar, uma sina que invariavelmente acaba mal para nós.
A culpa é nossa, que caímos no truque. Há anos que nos deixamos papar pela ascendência deles. Preferimos (mea culpa) gozar os vizinhos do lado, com o seu ar inofensivo de aristocratas sem fortuna que ainda acham que a monarquia está no poder. E não percebemos que para sair deste ciclo temos de ser ratos, temos de nos unir. Até podemos ir com a cabeça baixa e um ar de coitadinhos, mas o olhar deve ser vivo e acutilante.
É como se cada vez que fossemos lá, tivéssemos que viver a merda - a grande merda - que têm sido os últimos 15 anos futebolísticos. Como se fosse uma sessão de psicanalista onde temos de ir confessar os nossos pecados, chorar porque a culpa é do Damásio, do Vale e do Artur Jorge. Como se tivéssemos que ir perder, cumprir o que está escrito, o que nestes 15 anos se decidiu. Vamos sem meter o pé. É sábado à noite e eles já estão a ganhar.
Precisamos de, ao fim destes anos todos, andar para a frente. Para viver sem esperança, bastam os aristocratas dementes. Para viver com uma esperança idiota e impossível de realizar, também bastam eles. Temos de ser espertos, temos de ser valentes. Temos de deixar de querer ir ao Porto dar 3 e ao mesmo tempo achar que vamos levar 3.
Quando, a ganhar 0-1, atacávamos devagar e Aimar parou a bola, altivo e insolente em pleno Dragão, pensei que podíamos virar a história. Podíamos todos levantar a cabeça e começar a berrar. Erro meu. Temos de ser mais espertos. A questão é que Aimar pisou a bola altivo porque desconhece os últimos 15 anos. Porque não os viveu. Se Aimar os tivesse vivido como nós, os Benfiquistas de sábado à noite, chutava a bola para a bancada e fugia lá para trás à espera que o jogo acabasse.
Estou farto de ir lá a pensar nos últimos 15 anos. Estou farto de estar sempre em depressão antes de lá irmos. Estou farto de pesadelos como o da época passada e de só ter o Mantorras para me fazer gritar um golo como se não houvesse amanhã.
Quero que o meu Benfica (e eu, como doente) possamos esquecer o inferno que os últimos anos têm sido. E isso faz-se pisando a bola num ataque quando se está a ganhar. Bola ao lado, nas calmas, fazê-los correr. Cabeça levantada, olhá-los nos olhos: estamos aqui.
E quando isso acontecer regularmente podemos deixar de pagar o psicanalista. Podemos deixar de alternar entre as depressões e as fases maníacas. E podemos voltar a ganhar.

PS: como devem ter reparado, este blog tem andado muito por baixo. A culpa não é só da falta de tempo, é da minha relação com o Benfica. Um arrufo de namorados que não me dá força para ir ao Estádio. Eu sei, a culpa é minha. Eu sei, é nesta altura que lá devemos ir. Mas também eu tenho as minhas contas de psicanálise. O meu muito obrigado a quem, pacientemente, me chateia todos os dias para voltar a escrever aqui.